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quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Os Filhos dos Dias / Janeiro / Dia 10 / Distâncias


 Distâncias


O automóvel ia tossindo. E aos trambolhões, empilhados dentro do automóvel, viajavam alguns músicos. Estavam indo alegrar uma reunião de camponeses, mas já fazia um bom tempo que andavam perdidos pelos caminhos ferventes de Santiago del Estero.

Os desorientados não tinham a quem perguntar. Não havia ninguém, não sobrava ninguém naqueles desertos que tinham sido bosques.

E de repente apareceu, numa nuvem de poeira, uma menina de bicicleta.

– Falta quanto? – perguntaram a ela. E ela disse:

– Falta menos.

E foi-se embora na poeira.

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Os Filhos dos Dias / Janeiro / Dia 9 / Elogio à brevidade


 

Elogio à brevidade

Hoje foi publicado, na Filadélfia, em 1776, a primeira edição de Senso comum.

Thomas Paine, o autor, assegurava que a independência era uma questão de bom-senso contra a humilhação colonial e a ridícula monarquia hereditária, que tanto podia coroar um leão como um burro.

Esse livro de quarenta e oito páginas circulou mais que a água e o ar, e foi um dos pais da independência dos Estados Unidos.

Em 1848, Karl Marx e Friedrich Engels escreveram as vinte e três páginas do Manifesto comunista, que começava advertindo: Um fantasma percorre a Europa... E essa acabou sendo a obra que mais influenciou as revoluções do século XX.

E vinte e seis páginas tinha a exortação à indignação que Stéphane Hessel divulgou no ano de 2011. Essas poucas palavras ajudaram a desatar terremotos de protestos em várias cidades. Milhares de indignados invadiram as ruas e as praças, durante muitos dias e noites, contra a ditadura universal dos banqueiros e dos guerreiros.

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domingo, 7 de janeiro de 2024

Os Filhos dos Dias / Janeiro / Dia 8 / Não digo adeus


 Dia 8


Não digo adeus

Em 1872, por ordem do presidente do Equador, Manuela León foi fuzilada.

Em sua sentença, o presidente chamou Manuela de Manuel, para não deixar registro de que um cavalheiro como ele estava mandando uma mulher para o paredão, embora fosse uma índia bruta.

Manuela havia alvoroçado terras e povoados e havia alçado a indiada contra o pagamento de tributos e contra o trabalho servil. E como se tudo isso fosse pouco, havia cometido a insolência de desafiar para um duelo o tenente Vallejo, oficial do governo, diante dos olhos atônitos dos soldados, e em campo aberto a espada dele tinha sido humilhada pela lança dela.

Quando este último dia chegou, Manuela enfrentou o pelotão de fuzilamento sem venda nos olhos. E perguntada se tinha algo a dizer, respondeu, em sua língua:

– Manapi. Nada.

Eduardo Galeano

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Os Filhos dos Dias / Janeiro / Dia 7 / A neta


Dia 7 

A neta 

Soledad, a neta de Rafael Barrett, costumava recordar uma frase do avô: – Se o Bem não existe, é preciso inventá-lo. Rafael, paraguaio por escolha própria, revolucionário por vocação, passou mais tempo na cadeia que em casa, e morreu no exílio. A neta foi crivada a balas no Brasil, no dia de hoje de 1973. O cabo Anselmo, marinheiro insurgente, chefe revolucionário, foi quem a entregou. Cansado de ser perdedor, arrependido de tudo o que acreditava e gostava, ele delatou um por um seus companheiros de luta contra a ditadura militar brasileira, e os despachou para o suplício ou o matadouro. Soledad, que era sua mulher, ele deixou para o fim. O cabo Anselmo apontou o lugar onde ela se escondia e foi-se embora. Já estava no aeroporto quando ouviram-se os primeiros tiros.

Eduardo Galeano


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Os Filhos dos Dias / Janeiro / Dia 6 / Terra que espera

                              


Dia 6
Terra que espera No ano de 2009, a Turquia devolveu a nacionalidade negada a Nazim Hikmet e reconheceu, finalmente, que era turco seu poeta mais amado e mais odiado. Ele não pôde ser informado da boa-nova: tinha morrido, fazia meio século, no exílio, onde havia passado a maior parte da sua vida. Sua terra esperava por ele, mas seus livros estavam proibidos, e ele também. O desterrado queria voltar: Ainda me restam coisas para fazer. Me reuni com as estrelas, mas não consegui contá-las. Tirei água do poço, mas não pude oferecê-la. Não voltou jamais. Eduardo Galeano

Confira o vídeo a seguir: